domingo, 14 de janeiro de 2018

Maria, a girafa


Maria era uma girafa, ela era muito feliz, tinha família e amigos, adorava passear, sair e se divertir, ela era espontânea e gostava muito de conversar, fazer as pessoas rirem, ela era estabanada e atrapalhada, mas sempre queria ver todos a sua volta muito bens e felizes. Ela acreditava que o amor era o que movia o mundo, que o amor era a razão de tudo e de amor, ela vivia.

Maria até encontrou uma outra girafa, "mas que girafa incrível!" os olhinhos dela brilharam, seguiram a caminhada juntos dali em diante.
Em determinado momento, as duas girafas já não estavam se entendendo tão bem: Maria se sentia muito triste, porque ela não era boa suficiente, Maria era estabanada, em momentos de brigas ela não sabia a melhor resposta a dar, ela não sabia cuidar de seu bando, ela não sabia fazer feliz, ela não era boa o suficiente e se sentia a cada dia mais triste por isso. Ela via nos olhos da outra girafa: as coisas não iam bem, ela não era exatamente aquela girafa que talvez se tivesse imaginado.

Ela ficou muito triste porque sabia o quanto tinha defeitos e realmente, ela não sabia ser certa o tempo todo, ela errava e errava com frequência, o tempo todo. Ela começou a se sentir mal, se sentir uma girafa muito ruim... ela já não tinha orgulho do que era, porque não conseguia fazer aquilo que mais amava: dar amor. Ela se sentiu egoista, se sentiu manipuladora, se sentiu relaxada, se sentiu destrambelhada e sentia como se não fosse mais capaz de ser admirada, como se não atendesse mais aquilo que esperavam, ela pensava até que poderia ter dado pistas e sinais para que tivessem construído uma imagem dela, que não existia na realidade.

A verdade era uma só: Maria era cheia de defeitos, e isso estava doendo muito dentro dela. Cada vez que Maria tomava folego e resolvia que ia se dedicar e conseguiria dar seu melhor, ela seria perfeita novamente, algo acontecia, ela errava, ela era rude, era grossa, agia errado e não conseguia mais uma vez acertar. No começo ela imaginava que tudo isso era uma fase e ia passar, mas depois de vários episódios e tentativas, Maria começou a se convencer de que realmente, ela não conseguiria mais do que aquilo, ela já não se amava mais como antes, ela tinha medo, medo de errar, medo do monstro que ela percebeu ser, medo de nunca fazer nada certo, medo de não ter admiração de ninguém, medo de que ninguém pudesse gostar dela... Ela se sentiu insegura e não sabia mais o que fazer.


Então, Maria se perdeu, não sabia mais o motivo de estar vivendo, ela sentia que não fazia nada certo, não sabia como fazer as coisas, ela não tinha jeito, ela errava mais do que acertava, ela não sabia ouvir críticas e sabe do pior? ela nem sabia mais do que ela sabia, ela não sabia mais quem era e muito menos quem ela poderia ser...

Ela não sabia o que era certo fazer e nem o que seria dali pra frente. Ela sentia vontade de ser uma girafa sozinha, sem bando, porque assim não traria mais sofrimento e tristeza a ninguém.

Ela não se conformava, pois sua vida era o amor, e agora, ela não conseguia mais viver disso. Ela não sabia mais o quanto era amorosa e quanto seria o suficiente, ela não sabia se era compreensiva, não sabia se era organizada, não tinha jeito com as coisas, ela não sabia mais como poderia dar amor ao mundo, ela não sabia mais como fazer o mundo, que ela tanto amava, rir, ela não sabia mais o que ela era e o que aconteceu com o que ela foi.

A única solução que Maria encontrou, foi se retirar, ser sozinha, pra não magoar.

Será que um dia Maria poderia saber "Mariar"? ...